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Mercado de trabalho: informalidade cresce onde a reindustrialização ainda é promessa

Ilustração sobre mercado de trabalho e informalidade

A taxa de desocupação nacional caiu para 7,1% no trimestre encerrado em abril de 2026, segundo a PNAD Contínua divulgada pelo IBGE. A manchete sugere mercado aquecido. Mas, em seis estados, mais de 40% dos trabalhadores ocupados estão na informalidade — e a combinação de desemprego alto com informalidade crescente persiste no Norte e no Nordeste.

Esse padrão importa porque discursos sobre reindustrialização e geração de empregos de qualidade precisam ser testados contra dados regionais. O Brasil médio melhora; o Brasil fragmentado, nem sempre.

Panorama nacional

Entre janeiro e abril de 2026, a população ocupada atingiu 102,4 milhões de pessoas, alta de 1,2% em relação ao trimestre anterior. O contingente de trabalhadores formais com carteira assinada cresceu 0,8% — ritmo inferior ao da ocupação total, o que indica que parte da expansão ocorreu fora da proteção trabalhista.

A taxa de informalidade nacional ficou em 38,7%, estável na margem, mas ainda dois pontos acima do patamar pré-pandemia. O rendimento médio real do trabalho subiu 1,4% no ano, concentrado em serviços e comércio nas capitais do Sudeste.

Formal e informal lado a lado

Separar desemprego e informalidade é essencial. Um estado pode ter desocupação baixa se a população desistiu de buscar vaga — ou se a absorção ocorreu em bicos e autônomos sem contribuição previdenciária.

No Ceará, por exemplo, a taxa de desocupação caiu para 8,9%, mas a informalidade subiu de 41% para 44% em doze meses. Em São Paulo, desocupação de 6,2% convive com informalidade de 32% — ainda elevada para os padrões históricos da região, porém em trajetória de queda.

Queda do desemprego não é sinônimo de melhoria da qualidade do emprego. É preciso olhar carteira assinada, rendimento e duração das ocupações.

Nordeste e Norte em destaque

Maranhão, Pará e Amapá lideram a combinação negativa: desocupação acima de 9% e informalidade acima de 42%. Nesses estados, a construção civil e o comércio informal responderam por boa parte das novas vagas após a retomada do consumo local.

O setor industrial, quando aparece, concentra-se em agroindústria e mineração — segmentos com sazonalidade marcada e rotatividade alta. Projetos de manufatura anunciados com fanfarra estadual ainda não alteraram a estrutura ocupacional de forma visível nos dados do primeiro trimestre.

Reindustrialização no papel

Desde 2023, governos federal e estaduais anunciaram dezenas de investimentos em polos industriais, especialmente em semicondutores, energia e defesa. A Mandioca cruzou anúncios públicos com a evolução do emprego industrial formal por unidade da federação.

Em três estados com projetos de maior visibilidade — Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas Gerais —, o emprego industrial com carteira cresceu entre 2% e 4% no ano. Relevante, mas insuficiente para compensar perdas da década anterior em regiões que dependiam de montadoras e metalmecânica.

Onde a reindustrialização ainda é promessa no discurso, a informalidade preenche o vácuo: trabalhadores migram para entregas de aplicativo, reformas residenciais e venda ambulante — ocupações que não aparecem em inaugurações de fábricas.

Como ler os próximos trimestres

Três variáveis devem ser acompanhadas até o fim de 2026: a proporção de empregos com carteira no setor de serviços (que puxou a recuperação), o ritmo de contratações industriais nos estados com novos investimentos e a taxa de desalentados — pessoas que gostariam de trabalhar, mas não procuram por falta de oportunidade percebida.

Se a informalidade continuar subindo onde o desemprego cai, o debate sobre reindustrialização precisará deixar o palanque e entrar na planilha. Números nacionais tranquilizam; números regionais explicam por que tantos trabalhadores ainda não sentem a melhora.